Arquivo de segurança

BICICLETA QUENTE EM TELHADO DE LATA

Posted in cycle to know with tags , , , , , , on 23 de Abril de 2012 by Humberto

Já fiz muitos quilómetros de carro com uma bicicleta agarrada ao tejadilho. Quando decidi desafiar a cidade invicta de bicicleta escolhi um modelo que não era opção para o consumidor que se limitasse a procurar dentro de fronteiras. Como já por aqui repeti, foi na Galiza, mais precisamente na Bici Total de Vigo que, depois de crescido, comprei a primeira bicicleta. Influenciado pelos sucessos de Lance Armstrong no Tour, escolhi um modelo híbrido da Trek, bicicleta que ainda hoje é a mais usada no meu commuting diário. Passado sensivelmente um ano e quando resolvi aventurar-me por trilhos mais selvagens, mantive-me fiel à loja e à marca optando por uma Fuel e, já de regresso à capital, mandei vir da Galiza um modelo feminino de montanha da marca de Waterloo.

Thule Tour 510

Ir do Porto a Vigo no início do século XXI por estradas ainda não portajadas já era coisa que compensava por várias razões. O marisco e o peixe, a movida e as tapas, o passeio e as gentes, o preço da gasolina e até o preço das bicicletas, tudo atractivos para aquele tempo e vai-não-vai, me meter no carro e cruzar a fronteira. Por duas vezes fiz o caminho de volta com mais um par de rodas. Se o primeiro ainda fez a viagem apertadinho na bagageira, o segundo já veio preso no tejadilho num suporte da Thule. Como as revisões são grátis para todas as bicicletas compradas na loja, foram várias as vezes em que, enquanto eu ia de copas, as meninas ficavam no salão a fazerem tratamentos de rejuvenescimento. Muito boas recordações e saudades dessas viagens guardo e do fantástico e muito profissional atendimento na loja galega.

Por causa da itinerância de então e por ter duas bicicletas que me eram inseparáveis, tive de comprar um segundo suporte. Já nessa altura eram caros, tão caros como uma bicicleta de supermercado! Com ambos os suportes podia transportar as duas bicicletas ou partilhar a viagem de carro com quem quisesse ir à procura de trilhos e aventuras montanhistas. Nunca transportei mais de duas bicicletas, embora já tenha visto carros com quatro e até cinco suportes no tejadilho. A resistência provocada pelas bicicletas no tejadilho aumenta significativamente o consumo e exerce sobre a estrutura do automóvel uma elevada tracção. Não é à toa que os fabricantes de suportes recomendam que se limite a velocidade quando se viaja utilizando esse tipo de equipamento. Se algum dia tiver que transportar mais que duas bicicletas -coisa que mais cedo ou mais tarde acabará por acontecer, mandarei montar uma gancho de reboque para poder usar um suporte próprio na traseira do carro. Se entretanto ainda houver carro!

Dois dos suportes estão mal montados

Quando se monta um segundo suporte no tejadilho, a fechadura dum deles terá acesso muito difícil visto ficar do lado de dentro, pelo que há que montar esse suporte apenas após inverter o braço basculante. Isto deve ser feito para facilitar o acesso a cada um dos suportes desde o respectivo lado do carro mas sobretudo por uma questão de segurança. O segmento que segura a bicicleta pelo quadro deverá sempre estar de modo a que a roda da frente da bicicleta esteja virada para a frente do carro. Desta forma a força exercida sobre a estrutura não contraria o sistema de retenção, não empurrando a bicicleta para fora do suporte. No caso de se instalar um terceiro suporte, o do meio poderá ficar com a fechadura virada para qualquer dos lado, desde que esteja apontado na direcção correcta. Basta ler atentamente o manual de instalação das bases para não cometer esse erro.

Mont Blanc Barracuda

Vejo todos os dias carros com suportes no tejadilho mal montados e não foram poucas a vezes que abordei condutores no sentido dos alertar para essa questão. Já me responderam que o facto de um ou mais suportes estarem ao revés tem que ver com o espaço disponível para arrumar tantas bicicletas. Noutros casos pura e simplesmente meteram mãos à obra sem olhar para o folheto de instruções ou foram “outros” quem montou os suportes. Escusado será dizer que os vendedores destes suportes também estão a pecar por omissão no acto da venda mas também sabemos o tipo de ajuda técnica que podemos esperar da maior parte das lojas. Quando se tem que transportar mais que duas bicicletas pode haver dificultar em desencontrar os guiadores. A solução mais fácil é realmente intercalar a direcção das bicicletas. Fácil mas pouco inteligente, visto que dessa forma não são respeitadas as regras de montagem e qualquer garantia do fabricante é assim anulada, além que põe em risco a cobertura do seguro em caso de (longe vá o agoiro!) acidente. Não são raros os relatos de situações envolvendo bicicletas voadoras com mais ou menos consequências mas sempre com um grande susto.

Thule OutRide 561

Para além dos modelos “normais”, existem suportes específicos para bicicletas mais pesadas como as de descida, de downhill, outros em que a bicicleta é fixada ao suporte directamente pelo forqueta, desmontando a roda da frente, recomendados para bicicletas de estrada, que pelo seu reduzido peso e fragilidade, ficam dessa maneira menos expostas à velocidade do automóvel. Há-os de vários fabricantes e para quase todas as bolsas. Qualquer que seja o suporte que escolha, é imprescindível que leia e respeite as indicações do manual de instalação! Como dizem os fabricantes, “em caso de dúvida deve contactar-se o fornecedor”. Por vezes, uma simples consulta online e o problema fica solucionado. Por causa das tosses, a verdade é que quando viajo nunca fico muito tempo atrás dum carro que transporte bicicletas no tejadilho, sobretudo se reparar que vão guiadores virados para trás.

Três suportes bem montados

Bem, a terminar este aviso à navegação e desafiando novamente a vontade dos caríssimos leitores para perderem o vosso precioso tempo a comentarem as minhas divagações, tenho ainda assim a ousadia de perguntar: usa o meritíssimo leitor suportes de tejadilho para bicicletas? No caso de se dar ao trabalho de responder e na eventualidade de ser de forma afirmativa, já reparou se os tem bem montados? E, correndo o risco de me tornar insuportavelmente maçador, só mais uma pergunta: costuma vossa senhoria rever apertos e ajustes antes de viajar? Muito obrigado pela participação neste mini-inquérito. Um bem haja! E boa viagem.

CICLISTAS MARGINAIS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 14 de Abril de 2012 by Humberto

Existem junto das entradas do passeio marítimo de Oeiras, na Marginal, uns sinais colocados pela Câmara Municipal condicionando, proibindo, a circulação em bicicleta. Sinais que são das coisas mais estúpidas que uma Câmara já fez! A de Oeiras achou que tinha de limitar o acesso a quem pense em ir de bicicleta para a faixa ribeirinha, por alegadas razões de segurança. Para evitar acidentes entre quem por lá caminhe e bicicletas, a CMO proibiu o acesso a velocípedes. Repito: é uma decisão estúpida sem qualquer sentido de justiça e perfeitamente irresponsável! A bicicleta é um veículo de passeio mas também é um veículo de transporte. Um cidadão pode usar a bicicleta para dar um passeio na zona ribeirinha de Oeiras e pode usar a bicicleta para se deslocar passando por essa mesma zona. Um munícipe pode chegar lá com a bicicleta em cima do carro, descarregar a bicla e dar por ali umas pedaladas ou pode ir até lá a pedalar desde casa. Uma pessoa pode ir sozinho ou levar os filhos de qualquer idade, a mãe, a avó, o vizinho ou quem quiser e ir pedalar junto ao rio.

Nos trajectos que um cidadão percorre no concelho de Oeiras quantos perigos enfrenta? Quantos atropelamentos ocorrem em Oeiras provocados ou sequer envolvendo bicicletas, por dia? Quantos cruzamentos, quantas ruas há no concelho de Oeiras sem passadeira? Quantas ruas há sem passeios? Quantos automóveis estão neste momento -em qualquer momento- estacionados em Oeiras de forma ilegal, pondo em risco a segurança dos utilizadores da via pública? Quantos automóveis são multados diariamente em Oeiras por velocidade excessiva ou mau estacionamento? Quanto gasta a CMO em arranjos de passeios devido aos danos causados pelo estacionamento abusivo? Quantos acidentes na via pública têm lugar em Oeiras por falhas de segurança?

Se a circulação de pessoas, porque é disso verdadeiramente que se trata, tem de ser limitada no passeio da Marginal em Oeiras, evocando questionáveis razões de segurança,  porquê só a quem quer circular de bicicleta? Então e quem escolher calçar um par de patins? Ou for de trotineta? Ou levar cães e ainda por cima com aquelas trelas extensíveis? E quem empurrar uma cadeira de rodas? E não serão os calções curtos de jogging um atentado à segurança cardíaca? Independentemente da perigosidade efectiva que são os eventuais danos causados numa criança pelo impacto com uma bicicleta circulando ainda que a muito baixa velocidade, será proibir a circulação em bicicleta a solução? E o que dizer do horário? De Abril a Outubro pode-se pedalar entre as 8 da noite e as 9 da manhã. Porquê? Porque não entre as 5 e as 7 da manhã e entre as 17:45 e as 22:17? Porque apeteceu ao empregado do Isaltino escrever aqueles algarismos e não outros quaisquer? E qual a razão para a exclusão permitir crianças até aos oito anos? Quer dizer que os pais das crianças constituem um perigo e os petizes não? Será que uma criança de oito anos não consegue pedalar depressa nem nunca poderá provocar um acidente?

No meu commuting cruzo-me com todo o tipo de ciclistas, desde o bike ninja ao licrafanático, a menina na bicicleta com cestinho e a velhinha pasteleira, o ranger da bicicleta de supermercado e a ligeireza da dobrável very english. Pessoas de colete reflector e capacete e outros de blazer e cycle cap. Uma coisa arrisco concluir: a atitude na “estrada” de quem pedala tem tudo que ver com o aspecto gráfico do conjunto homem-máquina e sugiro até um ditado, para constar num futuro dicionário, do tipo “diz-me como te vestes, dir-te-ei como pedalas”. Em paralelo, o aumento significativo de ciclistas urbanos a pedalarem em circuitos até há pouco exclusivamente utilizados por bêtetistas pouco convictos, faz com que os ciclistas mais desportistas se comecem a sentir assim a modos que deslocados. Realmente enfiar o corpito dentro duma fatiota plastificada e no mínimo de gosto duvidoso para ir pedalar para a Baixa é, direi curioso… Em Monsanto, no Jamor ou à volta da albufeira do Alqueva, ainda vá, mas na ciclovia do Tejo!?

Quero com isto dizer que não é preciso proibir -fosse isso possível! um determinado tipo de roupa para prevenir determinado tipo de comportamento. Sim, é de comportamento que estamos sempre a falar nos blogs sobre bicicletas, ou não é? Não é por proibir o excesso de velocidade na auto-estrada que o pessoal vai passar a poupar no combustível, ou é? Com sinalética própria, algumas marcações no pavimento e uns cartazes com umas dinamarquesas giras (porque não?), seria perfeitamente possível adaptar o trajecto, agora vedado aos ciclistas, à sã convivência de todos, de forma normal e civilizada. Se esse tivesse sido o caminho, teria a CMO dado prova efectiva de preocupação com a segurança dos seus munícipes e de todos os que visitam o passeio marítimo de Oeiras, independentemente da forma como se fazem delocar. Demonstraria bom senso no pensamento, inteligência no estudo e vanguarda na acção.

Uso quase diariamente o passeio de Oeiras, na medida em que tenho por principio utilizar as vias que me permitem circular com maior segurança. Adapto a minha velocidade de acordo com a via e com o trânsito, seja ele pedonal ou motorizado. Poder pedalar ao longo da água é não só um prazer individual pela paisagem que me acompanha mas também porque me cruzo com pessoas que partilham sentimentos semelhantes para com aquele espaço. A bicicleta é um veículo que, ao contrário do automóvel, promove a interacção e da integração. A Marginal é um lugar privilegiado da foz do Tejo. Percorrer toda a extensão desde Algés até Cascais ao longo do rio já mar, seja de carro, bicicleta ao a pé, permite desfrutar de boas vistas em lugares muito bonitos e agradáveis. É um caminho que se pode fazer a qualquer hora do dia ou da noite, em ambas as direcções e com qualquer tipo de tempo, sempre com prazer.

A atitude da CMO promove a associação entre insegurança e bicicleta. Faz com que alguns cidadãos -uma minoria, é verdade, que se cruzam comigo  me olhem de lado, com cara feia, como que dizendo “oh palhaço, não sabes que não podes andar aqui”. Esta proibição estúpida e injusta é mais uma prova que muitos autarcas, apesar de acções pontuais de relativo impacto mediático,  continuam ancorados numa arquitectura de pensamento contrária aos interesses da bicicleta. Proibir as pessoas de pedalar não resolve nada. As pessoas devem não só ser autorizadas a pedalar como devem ser incentivadas a pedalar. Pedalar aproxima-as umas das outras e do espaço que partilham. Torna-as mais parte do espaço comum. Pedalar torna-nos mais responsáveis para com o ambiente. Pedalar torna-nos melhor cidadãos. Perceber isto é meio caminho para não proibir ninguém de pedalar.

Não são umas ciclovias abandonadas e ineficientes ou meia dúzia de horas de Marginal sem carros que resolvem problemas estruturais e contribuem para uma melhor mobilidade no concelho de Oeiras. Todas as semanas aumentam as razões para experimentar ir para o trabalho de bicicleta na razão proporcional do aumento dos combustíveis e multiplicadas pelo preço-dos-transportes. A bicicleta está aí para ficar e proibir é não estar a ver um boi à frente do nariz! Será o caro leitor um commuter em Oeiras ou na Linha de Cascais? Utiliza o prezado leitor o passeio marítimo apesar da proibição? O que acha que podemos fazer para corrigir a situação?

TENHAM UMA BOA SEMANA!

Posted in cycle of sighns with tags , , , on 9 de Outubro de 2011 by Humberto

Porque amanhã é segunda-feira e voltamos todos à estrada nas várias qualidades. Porque a estrada deve ser inclusiva e não continuar exclusiva de apenas alguns mais fortes e mais rápidos.

Porque o respeito que nos merece um peão é o mesmo que merece um automobilista e que merece um ciclista, a capacidade de coabitarmos é fundamental e deve estar à cabeça da transformação das mentalidades.

Aqui fica um pequeno filme que dá que pensar no papel que cada um assume lá fora, na rua.

Road hug from Dominic Latham-Koenig on Vimeo.

LUZ, CÂMARA, BICICLETA!

Posted in cycle to know with tags , , , , , , , on 25 de Setembro de 2011 by Humberto

A Federação de Cicloturismo, a Câmara Municipal de Lisboa e a Produtora Retina Azul uniram-se e realizaram três pequenos filmes com informações úteis sobre a utilização da bicicleta na cidade.

Como cruzar os carris do eléctrico e circular na faixa de rodagem, sobre cadeados e segurança e a bicicleta nos transportes públicos são questões abordadas de forma clara com recurso a imagens exemplificativas.

Podendo considera-se os primeiros trabalhos que põem em imagens um conjunto de recomendações válidas não só para quem está a começar mas também para quem já por aí anda, é seguramente um contributo importante para a divulgação da bicicleta como meio de transporte.

Participante modesto desta empresa, convido o caro leitor a assistir ao que abaixo se mostra e a deixar a opinião. Qualquer que ela seja.

BORRACHINHA REMENDADA

Posted in cycle to know with tags , , , , on 11 de Julho de 2011 by Humberto

No artigo anterior, a par de algumas considerações derivadas das preferências deste escriba, ilustrei com escolhas materiais para o caso do caro leitor necessitar de inspiração para pôr à prova a sua perícia. O processo prático de trocar uma câmara de ar, um pneu ou fazer um remendo, não estiveram nos objectivos do texto. Até porque uma genérica busca pela rede e resultam abundantes filmes demonstrativos de como o fazer.

Em cidade, ou quem simplesmente comuta diariamente, sentirá provavelmente a necessidade de transportar uma mala ou um alforge, pelo que o espaço não será um grande problema. Para quem costume ir para os montes ou dar largas ao pedais pelas estradas secundárias, as minha modestas recomendações não servirão e grande consolo. Uns porque podem usar pneus sem câmara de ar e recorrer a produtos do tipo autosselantes, os outros porque o peso, o espaço e o tempo são mesmo limitados.

Depois de ler alguns válidos comentários ao artigo precedente, decidi tentar descrever os procedimentos minuciosos (!) que devemos observar desde que damos com o pneu vazio até podermos seguir viagem. Existem dois tipos de furo: os por rasgo e os por picada. Normalmente o primeiro é provocado pelo trilhar do pneu e pode acontecer em todo o perímetro da câmara de ar ou pneu. A subir ou descer um passeio, pavimento empedrado ou de terra com calhaus grandes, são situações propícias a este tipo de azares. Pode ainda acontecer que a câmara de ar ficou dobrada dentro do pneu ou a fita da jante já não cumpre a sua missão de proteção entre a borracha e a extremidade dos raios.

O segundo ocorre normalmente por impacto contra um objeto pontiagudo e verifica-se maioritariamente na faixa de rolamento do pneu/câmara. Pregos e outros objetos metálicos, pequenos ramos resistentes, espinhos, pedras e gravilha nova, cacos de vidro sobretudo de garrafas, podem originar furos lentos que só se fazem notar já muitas pedaladas à frente. No caso dum rasgo, o esvaziamento do pneu é rápido e muitas vezes até se ouve o silvo do ar a sair. Neste caso, o rasgo pode até nem ter remendo, ou requererá um remendo de maiores dimensões e a melhor maneira é usar-se um pedaço de borracha duma câmara de ar inutilizada.

Uma vez detetado o furo há que desmontar a roda do quadro. Se o pneu não estiver totalmente vazio será preciso abrir os travões de pinças para que a roda passe no meio das pastilhas. De seguida, com um dos desmontas enfiado entre o pneu e a jante de forma a que a borracha passe para o lado de fora do aro, circunda-se com o outro desmonta todo o pneu de forma a que um dos seus lados fique totalmente fora do aro e se possa extrair a câmara de ar.

A válvula, caso seja do tipo francesa (ou Presta), pode estar presa à jante por uma anilha que tem de ser desenroscada. A câmara de ar furada deve ser inspecionada mesmo que não a queiramos remendar logo. Encontrar o buraquinho ajudará a perceber o que esteve na origem do furo. Embora não seja necessário desmontar completamente o pneu do aro, eu prefiro fazê-lo. Assim posso verificar pelo tato e pelo olhar o estado da fita de jante e limpar qualquer impureza que esteja no interior no aro. Posso inspecionar melhor o interior e exterior do pneu à procura de alguns detrito que lhe tenha ficado espetado e eventualmente aplicar um remendo no interior do próprio pneu antes de voltar a montar a nova câmara de ar.

Há quem recorte uma tira de câmara velha e a fixe no interior do pneu como reforço na zona de rolamento. Acrescenta peso mas também resistência a furos por picada. Observando o sentido de rotação do pneu volta a montar-se um dos lados de novo na jante. Insufla-se algum ar na câmara de ar nova de modo a que ganhe forma e instala-se a válvula no lugar não apertando totalmente a anilha e observando que faz um ângulo de noventa graus com a tangente interior do aro (gostaram?). Com muito cuidado introduz-se a câmara de ar no pneu e, mantendo todo o cuidado para a não trilhar, passamos o segundo lado do pneu para o lado de dentro do aro. Se se tiver que recorrer aos desmontas, é fundamental que se redobrem os cuidados para não ferir a fina borracha da câmara.

Antes de encher de novo o pneu, convém verificar uma vez mais ambos os lados para certificar que tudo está uniforme e sem entalar a câmara de ar. Uma vez o pneu ajustado com a pressão correspondente, fixas-se a anilha da válvula mas sem aplicar demasiado aperto. Volta-se a montar a roda no quadro, reapertam-se os travões e verifica-se o seu funcionamento e faz-se a roda girar para ver se tudo está como deve. A câmara de ar furada arrumada e ala que se faz tarde!

No caso de se pretender remendar o furo no local, há que limpar e raspar a câmara na zona do furo, aplicar uma fina e uniforme camada de cola. Cuidado para não entrar cola pelo furo ou arrisca-se a inutilizar de vez a câmara de ar. Retirar a película protetora do remendo e pressionar bem as duas superfícies por um minuto ou dois. Deixar secar bem e encher um pouco para ver se a colagem foi eficaz. Reinstalar a câmara no pneu de acordo com o que ficou escrito acima.

Eu faço assim e não me tenho dado mal.

Há sugestões? Venham elas!

BORRACHINHA FURADA

Posted in cycle to know with tags , , , , , , , , , , on 10 de Julho de 2011 by Humberto

Um furo no pneu é seguramente um dos azares mais tremidos por quem sai por aí a pedalar. Não é prático transportarmos uma roda sobressalente com um pneu montado para o caso de alguma eventualidade desagradável ocorrer mas se uma roda não cabe no alforge, alguns pequenos artigos podem de lá sair caso a tal eventualidade surja pontiaguda no caminho. Um ciclista que comute regularmente sabe que a melhor maneira de evitar um furo é a prevenção. E como é que se previne um furo? Olhando à volta quase que me apetece dizer que a maioria dos ciclistas escolhe à partida bicicletas de montanha, equipadas com pneus grossos e cardados, com perfis capazes de enfrentar o mais agreste tapete faquir e ficar a rir das cócegas, pelo que a prevenção de furos está, aparentemente, no topo das prioridades. Se é verdade que os pneus de btt são mais resistentes que os outros, também é verdade que a resistência ao rolamento é uma grande desvantagem.

Com o aumento das bicicletas de cidade e outras mais versáteis, são também mais frequentes os pneus finos, oferecendo melhor rendimento e conforto. Contrariamente ao que possa parecer, uma faixa de rolamento lisa pode ser mais segura que um perfil com relevo. Por exemplo, pequenas pedras de gravilha, ao ficarem retidas entre as ranhuras do perfil, podem originar um furo muito tempo depois. Prevenir os furos passa inicialmente por escolher pneus reforçados na zona de contacto. Manter os pneumáticos com a pressão recomendada e usar uma câmara de ar indicada para a medida do pneu, bem instalada de forma a evitar vincos que possam originar rasgos mesmo a rolar em pisos seguros, é igualmente importante. Claro que evitar pavimentos com muitas arestas, como a calçada portuguesa ou zonas onde o álcool da noite anterior se transformou em cacos de vidro, ajuda e muito, à -parafraseando Paulo Bento- tranquilidade.

Nestas coisas de prevenção não há seguro que valha e que eles acontecem, lá isso acontecem, pelo que não fica mal a nenhum ciclista, por muito ocasional que seja, saber que reparar um furo on the road não é nenhum berbicacho desde que, claro está, disponha de ferramentas e não tenha problemas em sujar as mãos. Nos meus tempos de cidadão da invicta cidade, não poucas vezes, ao rolar pelo macadame do nobre Parque da Cidade fui traído pela resistência da borracha tailandesa. Se numa primeira vez subi a avenida da Boavista com a Trek pela mão, das outras desmontei, remendei e montei o pneu sob o olhar curioso dos passeantes portuenses. Soubessem que o desafortunado ciclista era mouro e outro olhar faiscaria…

A bicicleta é um meio de transporte que convida à evasão, à contemplação, à calma, à aventura. Quando o furo acontece é bom que nos lembremos disto! Vamo-nos atrasar, teremos que analisar o problema serenamente e preparar-mo-nos para a tarefa. O processo é simples: Tirar a roda do quadro; procurar no pneu a razão do furo, desmontar o dito cujo e a câmara de ar; caso não seja ainda visível o furo, vistoriar a câmara; colar o remendo; remontar o conjunto e repor a roda no lugar. Se tudo correr bem poderá não demorar mais que trinta minutos, a maior parte deles à espera que a cola seque. Conhecer as lojas de bicicleta que ficam nas imediações dos nossos trajetos habituais pode também servir de ajuda. Mas então o que convém ter dentro do alforge?

  • um conjunto de desmontas
  • uma câmara de ar
  • um kit de remendos
  • uma bomba
  • um conjunto de ferramentas
  • toalhetes

Einstein's Patch Kit

Park Tool Pre-Glued Patches

Continental Tour 28 Slim

Wrench Force & SKS

Chave de luneta 8 & Kit Ferramentas Scott

Ferramenta Multi-funções Leatherman Wave

Muita coisa? Depende da perícia. Esmiucemos então as bugigangas. Um par de desmontas em plástico duro ou metal pesa pouco e não ocupa espaço. A câmara de ar é para o caso do furo ser irreparável na estrada para além de permitir não perder tempo com os remendos. É muito prática se o azar chegar com jackpot, isto é, com chuva ou à noite. Os remendos podem ser de dois tipos. Os clássicos que envolvem um tubo de cola e um pequeno pedaço de borracha e os mais recentes remendos autocolantes. No dia a dia confio nos segundos mas para os passeios não dispenso o método ortodoxo. Bombas há muitas, embora também se possam dividir em dois tipos: as de dar ao braço e as de garrafinha de ar comprimido. Por ser mais rápida e prática mantenho sempre à mão a de recarga, mas prefiro sem dúvida a outra até porque tem um fiável  manómetro. O conjunto de ferramentas pode ser dedicado a estas coisas das duas rodas a pedais ou uma coisa mais elaborada. Preciso esmiuçar os toalhetes? Bem me parecia…

Então e a tal perícia? A relação que se estabelece entre nós e a bicicleta assumirá tantas formas como binómios houver. Embora possamos encarar a máquina como um simples e utilitário objeto, a bicicleta retribuirá todo o carinho e atenção que lhe dedicarmos. Trocar um pneu pode não ser pêra doce mas é seguramente uma bonita prova de dedicação. E quem não tem uma história de furo para contar? Você aí. Sim, o caro leitor -ou leitora que este blog é contra a discriminação por género- já remendou um furo? E quer partilhar essa experiência? Que tal essa perícia?

À BEIRA DO LANCIL

Posted in cycle of sighns with tags , , on 13 de Abril de 2011 by Humberto

Sergei Gerasimovs, "Collective Farm Harvest", 1937

Tenho perguntado aos meus botões nos últimos dias e não poucas vezes, qual o efeito que terá na cabeça dos cidadãos este bombardeamento constante e sistemático com discursos de sentido único. A toda a hora e em todos os media podemos ouvir ou ler opiniões de eminentes figuras do poder instalado velho de trinta anos, que nos ameaçam e nos empurram para as mesmas opções políticas que tornaram Portugal um país não só totalmente dependente do exterior no que consumimos mas também agora de recursos financeiros. Qual será o efeito desta terapia de choque a que diariamente somos sujeitos? Ex-ministros, gestores, banqueiros, presidentes de institutos (os tais que dizem deviam acabar), professores, analistas políticos, comentadores (uma casta moderna que teima em dizer-nos o que pensar sobre tudo, não fôramos nós criar opinião própria), toda uma trupe de gente que nos acena com o caos, com o mal menor, que nos incute medo do futuro, nos espolia do direito de sonhar. Qual é o efeito desta conversa na cabeça dos cidadãos do meu país?

Pessoas que em boa verdade não servem de exemplo a ninguém, pois a sua prática política, as suas opções de desenvolvimento para o país, o respeito pelos direitos dos outros, não deixam margem para dúvidas sobre ao serviço de quem é que estiveram nos últimos trinta anos e ao de quem continuam agora, são as mesmas que nos vêm garantir que a solução está em continua a escavar o fundo do buraco que cavaram para nos enfiar dentro! Ouvir o líder dum partido popular falar de responsabilidade quando é graças às suas decisões que temos submarinos mas não temos hospitais é o derradeiro exemplo do descrédito a que se entregaram certos actores políticos. Além de ser um exercício de resistência pacífica à vontade justiceira do ouvinte.

O exemplo e a coerência dos nossos actos são observados sejamos ou não figuras públicas ou políticas. Os princípios pelos quais guiarmos a nossa acção é a imagem que queremos transmitir de nós aos demais. Não que mais importante que ser seja parecer, ditado popular bastante condescendente com práticas menos exemplares, mas somos muito de imagem feitos. E por dentro da imagem? Num fórum de activistas destas coisas das bicicletas e da mobilidade, activou-se recentemente uma recorrente discussão sobre a forma como os ciclistas devem comportar-se em matéria de respeito pelas normas do Código da Estrada. Um código que, lá está! por decisão política manteve regras negativamente discriminatórias para os utilizadores de bicicleta e, se algumas das suas regras forem levadas à risca, põem o ciclista em perigo sério em várias situações. Ou seja, o legislador produziu normas que não só não protegem os mais vulneráveis como os obriga a enfrentar situações que põem em risco a segurança do próprio e de terceiros.

Todos os ciclistas que andam nas ruas das nossas cidades sabem que não podem pedalar junto aos passeios porque as tampas de esgoto estão em mau estado ou não permitem ser transposta em segurança, conhecem o risco que representa a porta de um carro que se abre de repente, já experimenta ram o susto dum “gancho da direita”, estão atentos aos ângulos mortos dos retrovisores dos autocarros e mastodontes semelhantes, não percebem porque raio têm de ceder passagem num cruzamento a um automóvel que se apresenta pela esquerda, sabendo que este automóvel -porque se aproxima dum cruzamento- deve reduzir a velocidade e ceder passagem aos outros veículos. Enfim, o CE tem tantas incongruências que não se percebe como pôde sequer ser redigido. Mas se pensarmos que o senhor então ministro da tutela que o assinou, embuçado autarca se tornou num fervoroso defensor das… bicicletas, percebemos que muita desta gente em quem votamos não percebe patavina do que tem de fazer!

Até se conseguir alterar o CE é nele que estão as regras que todos os utilizadores da via pública devem observar, com a devida ressalva de não porem em risco a sua segurança ou a dos demais. Por exemplo, se um carro em viagem por autoestrada tiver uma avaria e for obrigado a parar, deve cruzar o traço contínuo e encostar o mais possível na berma, assinalar com o triângulo e procurar ajuda. No entanto é-lhe vedado a transposição do dito traço em normal circulação. Existem duas razões para quebrar o respeito pelas regras de trânsito, necessidade por razões de segurança ou interesse individual, egoísta. Circular no corredor destinado aos transportes coletivos é uma questão de segurança, mas será que passar um sinal vermelho na Almirante Reis às 6 da tarde não será apenas uma demonstração de desrespeito pelos outros? E onde é que fica o exemplo dado a quem nos observa? E se os nossos filhos nos observassem sentados na beira do lancil?

Creio que a responsabilidade dos ativistas das bicicletas ainda para mais envolvidos na formação de novos utilizadores da bicicleta obriga a que seja marcada muito bem a diferença entre as atitudes responsáveis e cívicas e as outras. O ganho que algumas das mais frequentes violações ao CE aportam à viagem não é de todo compensador da má imagem que passa para quem as observa, não resolvem o problema da lei nem são bons exemplos. Por muito que o CE necessite de ser revisto, são as mentalidades que precisam de se elevar. Somos todos nós que andamos na estrada a pedalar os verdadeiros embaixadores dum futuro certo. Somos nós que transportamos o sonho de cidades mais amigas dos cidadãos, mais respeitadoras das nossas vontades mas sobretudo das necessidades de cada um e de todos. Num tempo onde os valores são corrompidos e espezinhados, quando a selva lá fora fica mais densa e sombria, são os bons exemplos, é a pedagogia pela ação, os comportamentos socialmente positivos que farão com que o nosso país, nas mais diversas áreas, se liberte e possa de novo ser governado pelo Povo e para o Povo!

Agora vá lá fora e pedale com juízo! Há um mundo inteiro a olhar para si.

Alexander Deineka. "Collective Farm Worker on a Bicycle", 1935

FORMOSA E… SEGURA?

Posted in cycle to know with tags , , , , , , , on 30 de Setembro de 2010 by Humberto

O artigo sobre o cubo de mudanças Shimano Alfine 11 motivou um simpático comentário, comentário que motivou por sua vez este artigo. E assim se prova que bicicletas e pescadinhas-d’rabo-na-boca têm tudo a ver.

A questão do parqueamento seguro da nossa bicicleta é muito relevante. Para quem se faz deslocar regularmente, o mais certo é dar um pouco mais de atenção à escolha da máquina que utiliza, ou seja, é normal que não a tenha comprado no hipermercado suburbano mais à mão. Não que aí não se encontrem bicicletas dignas desse nome, mas a maioria dos pares de rodas que cruzam a linha da caixa registadora, estão condenadas a dar bastante trabalho aos seus felizes proprietários e, ao fim de meia dúzia de voltas ao quarteirão, parecem que se vão desmanchar todas a cada pedalada.

Se dividirmos o valor a que são vendidas a maioria dessas biclas, por todos os componentes que as compõem, facilmente chegamos à conclusão que não há economia de escala que aguente uma relação honesta qualidade/preço. Embora, obriga a verdade que se diga, muito do que é vendido em lojas da especialidade enferma igualmente do mesmo mal. Mas cada um sabe de si -apenas o Teixeira dos Santos quer saber de todos,- e como diria um anglo-saxónico “you pay what you get”.

Vamos então tomar por adquirido que alguém que faz da bicicleta veículo de transporte espera segurança e fiabilidade da sua montada. Da mesma forma que alguém que conduz um carro (apre, lá vem a comparação!) reza para que toda aquela tecnologia paga mensalmente ao banco responda de acordo com as promessas do vendedor, o ciclista quer ter travões em condições, pneus resistentes, um quadro rigido e confortável, um selim cómodo e por aí fora. Ou seja, o mais certo é que tenha investido uns cobres na sua menina (bicicleta é uma palavra feminina). Ora se há coisa que ninguém gostaria que lhe acontecesse é ouvir da sua própria boca, aquele relato do dia em que já-lá-não-estava.

Montar, por exemplo, um cubo Alfine 11, significa acrescentar ao valor que transportamos entre as pernas, umas belas notas de euros. Encontrar uma forma de proteger esse investimento de forma eficaz será seguramente preocupação não muito acessória. Com base nas minhas escolhas , tomadas após estudos de mercado e testes nos mais reputados laboratórios alemães (wher’else?), deixo duas sugestões das mais práticas mas infelizmente não das mais baratas. Nestas coisas dos cadeados, há até marcas que aconselham os diversos modelos de acordo com o valor que se pretenda prender ao poste.

Primeiro, vamos então trocar os eixos das rodas vulgarmente chamados de quickrelease, por eixos fixos com porcas que só podem ser apertadas ou desapertadas com uma chave mestra única, com forma irregular e protegida por uma túlipa de modo e prevenir que se possa usar um alicate. Segundo, vamos trocar a abertura fácil do espigão do selim, por um grampo com parafuso e porca idêntica à dos eixos das rodas. A Pitlock disponibiliza diversos kit com este tipo de segurança, podendo trocar-se todos os parafusos da bicicleta alvos de indesejada cobiça, por parafusos e porcas deste sistema, utilizando todos a mesma chave mestra. Com o primeiro conjunto é enviado um código com o qual se podem pedir mais parafusos e porcas, pelo que podemos ir gastando o dinheiro aos bochechos. Eu comprei há mais de dois anos o primeiro conjunto, via internet claro, e dou-me por muito satisfeito. Tenho é de andar sempre com a porca atrás…

Por fim, toca lá a escolher um cadeado a sério! Não aquelas coisas pesadas, parecidas com mangueiras, mas que se cortam com uma tesoura de poda ou abrem com uma esferográfica Bic. Optemos por um cadeado em forma de U, seguro e robusto. Eu uso um Kriptonite modelo New York Lock SDT, considerado dos mais eficazes. Tem no entanto dois grandes inconvenientes: é caro e pesado, mas (e há sempre um mas) faz o que lhe compete. Já apreciei de longe a minha menina a ser convidada por um estranho a dar o passeio da vida dela. Ao fim de aturada tentativa de convencimento, quando me resolvi a aproximar, ouvi um rasgado elogio… ao cadeado.

Estas duas medidas de segurança passiva, como diria o tal vendedor de automóveis, são garantia quase total, porque não há nada que tempo e esforço não se consiga quebrar, que a nossa bicicleta e todos os seus componentes lá estão no sítio esperado à porta do cinema.

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Luís Vaz não terá tido o prazer de andar de bicicleta, mas deu-me o título para o artigo acima por isto:

Descalça vai para a fonte
Leonor, pela verdura;
vai formosa e não segura.

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai formosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
cabelos de ouro o trançado,
fita de cor de encarnado…
tão linda que o mundo espanta!
chove nela graça tanta
que dá graça à formosura;
vai formosa, e não segura.

Luís de Camões

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