Arquivo de estacionamento

AS PALAVRAS AGARRADAS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , on 17 de Outubro de 2011 by Humberto

As palavras valem o que valem ainda para mais as dos políticos e num tempo em que os governantes não têm nem palavra nem honra, se é que uma pode ser separada da outra sem afogar a dignidade na lama mais porca. Dizer-se uma coisa ontem e anunciar-se o seu contrário não seria pecado ou não fosse a desfaçatez da mentira, a ignomínia da traição, os propósitos mais torpes com que nos espezinham o futuro e as esperanças.

Tivéssemos a efémera memória dum peixe dourado e suportaríamos incólumes as paredes escuras da caverna em que aos poucos se transforma a Europa. A Europa cada vez mais a dois tempos, a dois mundos. Um mundo como que do lado de cá das paredes, transparentes é certo, dum pequeno aquário e outro do lado de lá. Nós e eles. Nós os pobres, os gastadores, os privilegiados. Eles os outros.

Na outra Europa as pessoas vivem em cidades modernas e desfrutam de qualidades de vidas com as quais só podemos -e por enquanto ainda podemos!- sonhar. Na Europa de cá tentamos construir, com a pouca areia e pedras de foram sendo deixadas no fundo do aquário, pontes que nos tirem do atraso que pior que estrutural, é estruturante.

Mas como não somos peixes e muito menos dourados, temos memória, ou pelo menos vamos salvando nos seus meandros pedaços do dia-a-dia dos dias adiados. Como querendo registar nas paredes da caverna imagens que segurem o tempo, as esperanças, a fé, aqui fica este vídeo dum senhor político e governante em pleno uso do dom da oratória.

António Costa fala de mobilidade, condena o automóvel, enaltece a bicicleta e pensa numa cidade diferente da que temos hoje. Melhor. A mim não me parece que caiba dentro do aquário de vidro da Boémia onde nos querem presos mas gosto de acreditar que o sonho comanda a vida e quando um homem sonha o Mundo pula e avança.

Poesia à parte, será que o senhor Costa vai conseguir levar juízo aos senhor Zé e senhor Nunes e conseguir mudar mesmo a cidade?

DIZ-ME COM QUEM PEDALAS…

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , , , on 28 de Fevereiro de 2011 by Humberto

 

Projecto para Edimburgo pelo atlier de Jan Gehl

O tempo passa e este blog mesmo com a publicação de textos quase parada ainda regista um melhor desempenho que o avanço na construção das infraestruturas necessárias a uma cada vez mais urgente mobilidade sustentável em Lisboa. Pode parecer fixação deste escriba mas não tenho forma de me conformar com o atraso a que a cidade capital está condenada apesar de tanta cosmética gasta. Adoraria poder escrever loas à política camarária de elevação da qualidade de vida dos cidadãos que nela vivem ou trabalham. Mas a verdade é que não há mesmo razões para isso.

Os militantes contributos do Menos Um Carro ou Passeio Livre são infelizmente retratos sistemáticos e constantes duma cidade que definha à espera da salvação. Para lá da recuperação de alguns espaços verdes e de umas quantas tímidas mexidas na teia do trânsito, Lisboa continua a mesma cidade arcaica onde o carro é o rei e o senhor.

Uma das (pseudo)inovações da Lisboa pós-moderna é a rede de ciclovias e o adiado projecto das chamadas bicicletas partilhadas, a que eu prefiro chamar de bicicletas de aluguer. Nem uma coisa nem outra são propriamente novidades sequer cá pelas nossas amadas terras, mas da capital espera-se uma coisa em grande, com pompa! Tanta pompa que já devem ter gasto o orçamento todo nos foguetes.

Diz quem já experimentou bicicletas do projecto, as tais que podem ter até vinte e tal quilos e apenas três velocidades, que são boas para andar ali à beira rio, mas sobre isso basta ler o absurdo caderno de encargos do projecto alfacinha e eu já disse o que penso sobre isso aqui. O projecto enquanto negócio apelativo no produto e rentável no retorno -e nessa matéria não acredito que os preços sejam muito diferentes do que se pratica noutras cidades europeias- tem a viabilidade indissociável do meio onde se vai desenvolver: as ruas de Lisboa.

 

Hangzhou, China

E Lisboa precisa que os carros que nela entram diariamente fiquem longe das ruas e especialmente de cima dos passeios. Precisa que os senhores barbosas paguem um preço desencorajador pelo estacionamento. Precisa de mais autocarros e corredores bus, de passeios mais largos, ruas pedonais, mais passadeiras e o fim do flagelo do estacionamento em segunda fila. Precisa de efectiva redução da velocidade máxima e de gestão do semáforos orientada para o peão.

As cidades devem ser pensadas desde o ponto de vista do peão e à velocidade a que nos deslocamos andando a pé. Só quando isso acontecer em Lisboa poderemos afirmar que estão criadas as condições para a bicicleta invadir a ruas. Não sou eu que o digo, dizem-no os Gehl, os Lerner, os Jacobs e tantos mais que têm transformado a vida de milhões de cidadãos cosmopolitas nos quatro cantos do mundo. Se ao menos o vereador Sá Fernandes fosse amigo de algum deles…

 

E agora para algo muito à frente:

REQUIEM PARA 2010

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 29 de Dezembro de 2010 by Humberto

E pronto lá se vai mais um ano, o derradeiro duma década inteira desde o virar do século, do milénio, são tantas as legendas para pôr na fotografia destes últimos dias de dois mil e dez. Um ano anunciado por trompas e megafones de crise e que agora nos deixa um legado de dificuldades acrescidas, de menos salário e menos direitos, de mais impostos e mais injusta distribuição das riquezas várias, das produzidas e das outras. Um ano que passa para o seguinte mais pobres, desempregados e sacrificados que nos dizem ser em nome duma batalha épica para fugirmos a certa “ajuda”. Como se nos dissessem para corrermos mar adentro, que lá atrás vem um monstro que de nos querer ajudar nos acabará por afogar.

Neste ano derradeiro ano da primeira década do terceiro milénio desde que contamos o tempo pelo dedos das mãos dum deus que parece ter abandonado até os dele devotos à sorte do diabo dos mercados, vimos o mar a encher-se de crude assassino e os bolsos dos assassinos do crude a encherem-se com a vida de todos nós. Enquanto o aumento no preço dos combustíveis conseguiu escapar às capas mediática, tentam convencer-nos nas mesmas capas que as latas de quatro rodas, agora carregadas de baterias poluentes são uma qualquer solução para o martirizado espaço público e urbano. Estenderam-se mais tapetes de alcatrão a cobrir e enterrar uma mobilidade sustentável e sustentada.

Se olharmos com suficiente distância assertiva para os transcorridos doze meses o que mudou para as pessoas que resolveram empenhar-se um nadinha mais nesta coisa de mostrar à mole que andar por aí a pedalar é fixe e recomenda-se? Muito direi eu. Estamos menos sozinhos porque somos mais a partilhar os computadores uns dos outros. Temos seguramente mais leitores e produzimos algumas das mais interessantes páginas de texto sobre as questões da urbanidade, da mobilidade e, claro publicamos as melhores fotos inspiradas pela bicicleta. Somos uma tribo de índios bons num país de maus cowboys do asfalto!

Agora vamos manter a mesma distância e tentar perscrutar no retrovisor os sinais na paisagem que nos dêem razões para sorrir, porque alguém, com poder para isso, ali deixou uma avenida com mais passeio, acolá fechou um par de ruas ao trânsito automóvel, acoli reabilitou chãos e pavimentos. Para ser sincero vislumbram-se uns tímidos sintomas medrosos dalguma intenção (agora vou inalar umas fortes passas de boa-vontade) de afrontar o todo poderoso carro. O jardim do Príncipe Real, a Praça do Comércio ou o Bairro de Telheiras podem (ainda estou sob o efeito das baforadas) ser consideradas obras ingratas ao automobilista comum, mas e o que dizer dos abusos constantes ao estacionamento nessas e em todas as zonas da cidade? Com a muito simples e directa pergunta Ao fim de 2010 é mais difícil andar de carro em Lisboa, temos a resposta desesperante dum Não rotundo!

O próximo ano nascerá perene de motivos de revolta e luta por um país mais solidário e menos caridoso, mais independente do que consumimos e exportador do que nos sobra, mais retributivo e menos penalizador de quem cria, com menos desemprego e especulação e mais trabalho e produção. Um país em que se aposte no transporte público e não se parem comboios nem fundeiem cacilheiros, onde se beneficie o colectivo em detrimento do privado. Um dia as lides ciclistas foram imagem para nos destacar na dianteira duma Europa rica e próspera da qual hoje percebemos não só nunca nos aproximámos mas afastámos constantemente, uma Europa rica que nos escorraça e nos ameaça com uma varridela implacável.

Que a bicicleta seja a nossa arma para 2011, que nos sirva de lança na luta dos espíritos e lanterna no caminho para uma sociedade mais justa. Bom ano novo de bicicleta!

FORMOSA E… SEGURA?

Posted in cycle to know with tags , , , , , , , on 30 de Setembro de 2010 by Humberto

O artigo sobre o cubo de mudanças Shimano Alfine 11 motivou um simpático comentário, comentário que motivou por sua vez este artigo. E assim se prova que bicicletas e pescadinhas-d’rabo-na-boca têm tudo a ver.

A questão do parqueamento seguro da nossa bicicleta é muito relevante. Para quem se faz deslocar regularmente, o mais certo é dar um pouco mais de atenção à escolha da máquina que utiliza, ou seja, é normal que não a tenha comprado no hipermercado suburbano mais à mão. Não que aí não se encontrem bicicletas dignas desse nome, mas a maioria dos pares de rodas que cruzam a linha da caixa registadora, estão condenadas a dar bastante trabalho aos seus felizes proprietários e, ao fim de meia dúzia de voltas ao quarteirão, parecem que se vão desmanchar todas a cada pedalada.

Se dividirmos o valor a que são vendidas a maioria dessas biclas, por todos os componentes que as compõem, facilmente chegamos à conclusão que não há economia de escala que aguente uma relação honesta qualidade/preço. Embora, obriga a verdade que se diga, muito do que é vendido em lojas da especialidade enferma igualmente do mesmo mal. Mas cada um sabe de si -apenas o Teixeira dos Santos quer saber de todos,- e como diria um anglo-saxónico “you pay what you get”.

Vamos então tomar por adquirido que alguém que faz da bicicleta veículo de transporte espera segurança e fiabilidade da sua montada. Da mesma forma que alguém que conduz um carro (apre, lá vem a comparação!) reza para que toda aquela tecnologia paga mensalmente ao banco responda de acordo com as promessas do vendedor, o ciclista quer ter travões em condições, pneus resistentes, um quadro rigido e confortável, um selim cómodo e por aí fora. Ou seja, o mais certo é que tenha investido uns cobres na sua menina (bicicleta é uma palavra feminina). Ora se há coisa que ninguém gostaria que lhe acontecesse é ouvir da sua própria boca, aquele relato do dia em que já-lá-não-estava.

Montar, por exemplo, um cubo Alfine 11, significa acrescentar ao valor que transportamos entre as pernas, umas belas notas de euros. Encontrar uma forma de proteger esse investimento de forma eficaz será seguramente preocupação não muito acessória. Com base nas minhas escolhas , tomadas após estudos de mercado e testes nos mais reputados laboratórios alemães (wher’else?), deixo duas sugestões das mais práticas mas infelizmente não das mais baratas. Nestas coisas dos cadeados, há até marcas que aconselham os diversos modelos de acordo com o valor que se pretenda prender ao poste.

Primeiro, vamos então trocar os eixos das rodas vulgarmente chamados de quickrelease, por eixos fixos com porcas que só podem ser apertadas ou desapertadas com uma chave mestra única, com forma irregular e protegida por uma túlipa de modo e prevenir que se possa usar um alicate. Segundo, vamos trocar a abertura fácil do espigão do selim, por um grampo com parafuso e porca idêntica à dos eixos das rodas. A Pitlock disponibiliza diversos kit com este tipo de segurança, podendo trocar-se todos os parafusos da bicicleta alvos de indesejada cobiça, por parafusos e porcas deste sistema, utilizando todos a mesma chave mestra. Com o primeiro conjunto é enviado um código com o qual se podem pedir mais parafusos e porcas, pelo que podemos ir gastando o dinheiro aos bochechos. Eu comprei há mais de dois anos o primeiro conjunto, via internet claro, e dou-me por muito satisfeito. Tenho é de andar sempre com a porca atrás…

Por fim, toca lá a escolher um cadeado a sério! Não aquelas coisas pesadas, parecidas com mangueiras, mas que se cortam com uma tesoura de poda ou abrem com uma esferográfica Bic. Optemos por um cadeado em forma de U, seguro e robusto. Eu uso um Kriptonite modelo New York Lock SDT, considerado dos mais eficazes. Tem no entanto dois grandes inconvenientes: é caro e pesado, mas (e há sempre um mas) faz o que lhe compete. Já apreciei de longe a minha menina a ser convidada por um estranho a dar o passeio da vida dela. Ao fim de aturada tentativa de convencimento, quando me resolvi a aproximar, ouvi um rasgado elogio… ao cadeado.

Estas duas medidas de segurança passiva, como diria o tal vendedor de automóveis, são garantia quase total, porque não há nada que tempo e esforço não se consiga quebrar, que a nossa bicicleta e todos os seus componentes lá estão no sítio esperado à porta do cinema.

_______________

Luís Vaz não terá tido o prazer de andar de bicicleta, mas deu-me o título para o artigo acima por isto:

Descalça vai para a fonte
Leonor, pela verdura;
vai formosa e não segura.

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai formosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
cabelos de ouro o trançado,
fita de cor de encarnado…
tão linda que o mundo espanta!
chove nela graça tanta
que dá graça à formosura;
vai formosa, e não segura.

Luís de Camões

FEIRA DE CARCAVELOS

Posted in cycle of live with tags , , , , , on 23 de Setembro de 2010 by Humberto

Quinta-feira é dia de feira em Carcavelos e isso faz parte da cultura urbana de pelo menos três concelho, Cascais, Oeiras e Lisboa. As peregrinações à feira são pedaço da minha memória adolescente e das primeiras andanças no comboio da linha, bem antes de alguma vez imaginar que para cá me havia de mudar.

A-Mercado•B-Futura Feira•C-Parque Feirantes D-Feira Actual•1-Variante•2-Linha REFER

O lugar da venda é um terreno baldio, do lado mar da linha férrea, junto à via rápida que liga a Marginal à A5. Um terreno com cerca dum hectare, de terra compacta e vedado por rede, sem nenhum tipo de infraestrutura de conforto para feirantes nem compradores.

Apesar de esforçados funcionários camarários limparem o recinto depois da venda semanal acabar, e só o recinto, quem por ali passar num qualquer dia sem feira, pode apreciar as centenas de sacos de plástico presos na vegetação rasteira, acumulados ao redor do perímetro.

Nos dias de feira, uma mancha multicolor dum lado da estrada e uma mancha branca do outro. As alvas furgonetas dos feirantes, preenchem um parque automóvel improvisado como improvisado parece ser tudo nesta feira. Porque são muitas as pessoas que vêm de carro, é ver as latas abandonados por todo o lado, enquanto os orgulhosos donos poupam na roupa os trocos para a gasolina.

Um pouco mais para dentro da vila, está o mercado de Carcavelos. A praça. Com peixarias, talhos, florista, padaria, fruta e legumes em venda diária, que às quinta-feiras transborda frescura pelo pátio. Nos últimos meses tem sido ouvido com mais insistência um pedido para que se junte a feira dos trapos com a dos comes, pois se muita gente vem à procura dum par de truces, porque não levar um quilo de tomates da horta do senhor António?

E que diabo tem a feira de Carcavelos a ver com a mobilidade? Tem tudo, digo eu. Maus acessos, estacionamento automóvel anárquico, pavimento em péssimo estado, tudo dentro duma pequena vila, da minha vila morena de adopção. Vila que afinal de contas, calcorreio sem problemas, pedalando calmamente e utilizando os numerosos e tão desrespeitados sinais de transito como bikerack, quando vou e venho como hoje, encher os alforges de frescos semi-biológicos, beber um café em chávena fria e comer um duchese à pastelaria Primavera.

Mas se eu não tenho problemas em andar por Carcavelos, em ir à feira ou ao mercado, porquê todo o paleio? Ora, porque é tão fácil solucionar o que está mal e este mal arrasta-se há tantos anos! E como? Vejamos: os “trapos” passariam a serem vendidos no terreno em frente ao mercado; as carrinhas dos feirantes estacionadas no mesmo espaço que é hoje usado para esse efeito, mas devidamente pavimentado e organizado; bem como o actual lugar da feira, transformado em parque para visitantes. Como tudo isto está nos limites do miolo da vila, mantinha-se as ruas livres das latas forasteiras. Já agora, uma cobertura retráctil sobre o mercado, que abrigasse produtos e pessoas das agruras do tempo e desse um aspecto mais limpo que velhos toldos de lona sujos e gastos. E, claro, um parque para bicicletas!

Resultado, mais pessoas viriam, mais se venderia, mais qualidade de vida existiria. Alguém dúvida que até o comércio tradicional ganharia com isso? Carcavelos seria um melhor lugar para se viver e para comprar!

O QUE FAZER COM ESTE U

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , on 25 de Outubro de 2009 by Humberto

A Câmara Municipal de Lisboa retirou um parque que havia instalado mesmo em frente a uma loja de bicicletas perto da Praça do Município e no seu lugar pintou um para, imagine-se… motos!

Antes existia um estacionamento de bicicletas em U como outros que foram instalados em diferentes pontos da cidade. Agora há uma caixa pintada de amarelo, delimitada por pinos para uso exclusivo dos motociclos. Ao lado foi reservado um espaço para as máquinas sem motor, mas já sem direito a UU o que faz com que esteja sempre ocupado pelas vizinhas mais fortes.

Em conversa informal com um elemento da gestão do trânsito lisboeta, fiquei a saber que houve necessidade de encontrar espaço para as motos, que o parque de bicicletas não era usado e que outras lojas em Lisboa pediram para que lhes fosse montado uma parque à porta também.

Em vez de se encontrar um lugar para as motos no estacionamento para carros, até porque há um parque subterrâneo mesmo ali ao lado, ou elaborar um plano que disponibilizasse bike-racks onde isso fosse possível e se justificasse, em vez de privilegiar a inovação e o propalado investimento na bicicleta, a prática é demonstrativa do longo caminho que ainda têm de percorrer certas mentalidades.

Infelizmente a loja não vende motos, porque já lá entraram interessados cidadãos nesse ramo de actividade. Desculpem os mais sensíveis porque apesar deste blog tentar, até à exaustão, manter-se longe de interesses comerciais não publicitando produtos, marcas e lojas, neste caso a notícia fala mais alto.

Já agora, e para dar uma ideia de como podem as coisas ser diferentes, em Manhatan, por ideia do David Byrne, foi lançado um concurso para bike-racks. David ficou tão entusiasmado com a ideia que desenhou umas quantas, mas como não podia concorrer, as suas foram feitas extra concurso e montadas nos lugares que serviram de inspiração à sua concepção. Segue o vídeo feito pelo The Wall Street Journal online.

O NATAL É QUANDO UM HOMEM QUISER

Posted in cycle to work with tags , , , , , on 14 de Outubro de 2009 by Humberto

O segundo inquérito que aqui foi proposto mostrou que a instalação de cacifos na SIC seria o melhor incentivo ao uso da bicicleta. Metade das respostas coincidiram na necessidade de serem criados espaços onde se possa guardar o kit de higiene, uma toalha e um par de chinelos, o mínimo para quem pretende ficar como novo depois do esforço a pedalar. A outra metade das respostas dividiu-se equitativamente entre a existência de um parque de bicicletas e pelo financiamento à compra das bicicletas.

The Villager bike rack by David Byrne in NYC

Os parques de bicicletas são cada vez mais frequentes na paisagem urbana. Um pouco por todo o lado, por iniciativa pública ou por decisão privada, há já um considerável número de espaços onde se pode deixar a bicla mais ou menos segura, sem necessidade de recorrer ao poste do sinal. Nem sempre o tipo de estrutura ou o lugar onde é instalada é o mais eficiente, mas estamos ainda no início do regresso da bicicleta e admitamos que o método de tentativa e erro é muito apreciado sempre que se trata de intervenções no espaço público.

Recentemente o Partido Ecologista Os Verdes tentou que a Assembleia legislasse deduções sobre despesas com bicicletas. Se as empresas puderem participar em esquemas fiscais que facilitem aos seus funcionários a aquisição de bicicletas, passarão a envolver-se activamente na mobilidade sustentável. Medidas desde tipo são ainda vistas com muitas reservas, com mostra o resultado da iniciativa parlamentar, há no entanto a esperança que as empresas encontrem maneiras próprias de acompanharem os tempos de mudança. Parcerias comerciais ou financiamentos próprios são algumas das soluções que as empresas  podem adoptar e assim corresponderem à vontade de um quarto das respostas ao inquérito.

A existência de um lugar seguro onde guardar alguns pertences pessoais era comum em muitas empresas. Na tentativa de “racionalizar” espaço, os cacifos e outras amenities foram sendo abolidas. Depois de alguns anos sem acesso a instalações sanitárias completas, os funcionários da SIC viram essa lacuna colmatada. Esse pequeno esforço da empresa foi muito importante na mobilidade de alguns dos seus trabalhadores. E deu um sinal positivo para dentro e fora da empresa.

Menos de trinta pessoas responderam ao inquérito, o que significa que outros tantos cacifos reduziriam as desculpas dos ainda renitentes. Aqui fica o desafio!

SONHO DE NOITE DE VERÃO

Posted in cycle of sighns with tags , , , , on 29 de Setembro de 2009 by Humberto

A margem direita da foz do rio Tejo e a frente de mar a ela contígua é gerida desde o aconchego de muitos gabinetes. As câmaras de Loures, Lisboa, Oeiras, Cascais e a Capitania do Porto de Lisboa têm a seu cargo muitos quilómetros. Nestes públicos organismos labutam decisores políticos e responsáveis técnicos pelos destinos de tão belos lugares. Aqui se olha hoje para o Concelho de Cascais e a capacidade que esta autarquia tem tido nos últimos anos de estender tapetes de cimento e asfalto naquilo que é o ex libris do concelho, as praias e arribas ao longo da Marginal.

Ponhamos os olhos, por exemplo, na praia de Carcavelos, o seu extenso areal e a faixa entre a Marginal e a praia. Façamos o exercício de nos lembrarmos em quantas cidades se pode encontrar semelhante mini-paraíso. E digo cidade porque ista anda tudo ligado e na verdade Lisboa está ali ao lado e em menos dum credo estamos em Belém a saborear uma bica e um Pastel de Nata. Mais de um quilómetro de praia, ainda para mais larga de areia. Um mar que ora piscina, ora lugar de culto para surfistas. Bares e esplanadas para todos os gostos. Restaurantes com vista para um pôr de sol que dura todo o ano.

Quando a C. M. de Cascais resolveu “requalificar” a praia e área envolvente, quais foram as suas opções? Como aplicou os largos milhares de euros que destinou à empreitada? Facilitou os acessos? Aumentou a zona de passeio? Criou novos espaços onde se possa parar, sentar, ler, fora dos bares e restaurantes? Instalou parques infantis? Plantou árvores e fez mais sombras? Melhorou os acessos do lado de terra e pintou mais passadeiras? Reformou os túneis pedonais e facilitou a acesso às bicicletas com parques seguros?

Claro que com estas perguntas pretendo afirmar o que, em minha opinião naturalmente, não foi feito. Bem noto, quase diariamente, o que foi feito, mais uma vez em minha opinião, mal. E é por isso que acho ser a praia de Carcavelos um bom exemplo de como se faz tanto mal. Um exemplo de como a CMC olha para a faixa de costa do seu concelho, e fiquemos apenas pela virada a sul. Do quão fácil é afinal, se dúvidas restassem, algarvernizar o país.

Foi requalificado o areal, despejando toneladas de areia e criando assim uma melhor e maior praia para estender a toalha, pintaram, revestiram, muraram e fizeram mais escadas de acesso à areia. Reformaram balneários e instalações de apoio. Foram limpos de tags e graffitis os túneis pedonais, (esforço inglório pois nada mais apelativo que uma parede limpinha para os amigos das gravuras rupestres). Tudo obras de manutenção necessárias e bem vindas.

E como foi a intervenção estrutural? Aquela que de hora em diante define e condiciona a nova conjuntura. Optou por “afunilar” o passeio, quase conduzindo quem por ali anda até às esplanadas e bares para, supõe-se, consequente consumo. Proporcionalmente entregou-se muito mais espaço ao carro que às pessoas, desrespeitando o plano de ordenamento da orla costeira que obriga retirar do lado mar da Marginal todos os parques de estacionamento.

Estendeu um enorme tapete de asfalto, sem qualquer tipo de ordenamento, sem marcações, destinado ao estacionamento mais anárquico que se possa imaginar. Cabem centenas de carros de outros tantos automobilistas preguiçosos, já que segundo a CMC, não fora a facilidade de estacionamento à porta e ficariam os bares e restaurantes privados do seus clientes, incapazes que são de andar a pé. Só assim se compreende a opção, pois à praia, como se vê no Verão, chega gente que deixa o pó-pó bem longe da toalha.

Basta uma ligação à internet e alguns segundos de espera para se poder, através do Google ou serviço semelhante, constatar a existência de um enorme parque de estacionamento mesmo do outro lado da estrada, dispondo de acessos à  praia pela superfície e por baixo da Marginal. Por uma fracção do valor gasto nas obras aqui criticadas, teria sido possível melhorar as condições dessa área e torna-la mais apelativa e acolhedora (se é que um parque de estacionamento pode ser alguma destas coisas…) aos potenciais clientes (ah!).

Por muito atraso que se produza, por muitos pequenos interesses egoístas que se privilegie, um dia os carros vão mesmo desaparecer da praia de Carcavelos. Desaparecerão porque não pertencem àquele lugar, não fazem lá falta, porque usurpam chão cada vez mais raro, transformando-o numa zona seca, morta. Por muito que isso possa custar ao nacional egoísmo bacoco, um dia todo aquele espaço vai ser preenchido por coisas úteis e será finalmente entregue a quem dele faça bom uso e o merece: as pessoas, nós todos! Nesse dia, até os condutores de automóvel e os empresários da restauração ficarão a ganhar!

SOBRE COISAS ÚTEIS

Posted in cycle of sighns with tags , , , , , , , , on 12 de Agosto de 2009 by Humberto

Bicycle Wheel, Marcel Duchamp. MoMA

Este texto também se podia chamar drive-in shopping, conceito que muito me admiro não ter ainda sido devidamente implantado por estas lusas terras. Mas vamos por partes.

Que as grandes superfícies comerciais retiram clientes ao comércio tradicional já restam poucas dúvidas. Crescendo as cidades na periferia, é legítimo que cresça o número de clientes que se têm de satisfazer nas suas necessidades de consumo. Sendo essas novas “cidades” autênticos aglomerados de bairros onde raramente se contemplam lojas nos prédios construídos, torna-se compreensível que as lojas -porque tem sempre de haver lojas- sejam  construídas noutro lado. Como se sabe esse “lado” são os centros comerciais.

No entanto também é verdade que desde sempre, em Lisboa desde a construção do centro comercial das Amoreiras, foram sendo construídos espaços deste tipo dentro de zonas da cidade onde o eventual aumento do número de consumidores não o justificaria per si. Ou seja, não havia uma saturação de clientes nas lojas locais, nem esses espaços foram ocupados pelas “lojas do bairro” que dessa forma procuraram aumentar a sua oferta.

Olhe-se para o c. c. Colombo por exemplo. A zona de Benfica-Lumiar-Luz não estava carenciada de comércio de modo a justificar aquele colosso de betão e ferro que ali implantaram. Mesmo a construção do interface rodometropolitano não serve razoavelmente de justificação. O objectivo do Colombo não foi claramente o de suprimir uma carência local, mas uma bem mais global.

E isto liga com a bicicleta, onde? já perguntará o leitor mais impaciente. Lá chegaremos… Uma das principais características dos c.c. é o gigantismo dos parques de estacionamentos, pagos na sua maioria, claro. No Colombo onde, de tão grande que é, tem frequentemente pisos fechados. Ou seja, estes parques são projectados com base numa afluência massiva de clientes que até eles é esperado que cheguem de automóvel.

Voltando aos lojistas de bairro, que vêem invariavelmente o seu futuro escurecido pela sombra dos c.c., ouviram sempre dizer que “a coisa não é bem assim”, “que é o progresso a progredir”, “que temos que nos adaptar aos tempos modernos” e “que não se preocupem porque a concorrência fará sempre triunfar os melhores” e “nós -o governo e as câmaras- cá estaremos para os ajudar a ultrapassar estes tempos de mudança”.

Ora é exactamente aqui que a porquinha torce o rabito! Uma coisa é o que se faz, outra coisa é o que se diz que se vai fazer. Por mais palavras, os Colombos fazem-se, as outras coisa vão fazer-se. E que coisas são essas? Coisas úteis. Como? Então… como nos c.c.! Lojas em ruas sem carros e com estacionamento perto, mesmo pago. Não me gritem já que isso é impossível! e que os portugueses adoram c.c.! Até podem adurar, mas já viram alguém vestido com um coçado fato-de-treino a passear o bólide nos corredores do Colombo?

Infelizmente, em matérias de urbanismo, Lisboa, ou mesmo a maioria das cidades do nosso país, não é exemplo. Passemos os olhos pela memória que resta do que nos foi prometido para o pós-Expo98 e depois atentemos no que lá vemos hoje. transformado o pomposo Parque das Nações… Profissionalmente, já acompanhei um grupo de congressistas em visita por diversos locais da nossa capital. Eram arquitectos de diferentes países que vieram ver maus exemplos na nossa mal tratada Lisboa. Exactamente! foram ver “o que não fazer”, in situ, in Lisbon! Foi há muito tempo. Nessa altura fiquei triste e ao mesmo tempo contente porque pensei “se já demos com o galho, alguma coisa vai ter de  mudar”. Pois, mas não mudou. Por onde então os acompanhei, está tudo na mesma… E se se aprende com os maus exemplos, como já escrevi aqui, os bons exemplos são para copiar. Acredito que, porque os há, os podemos encontrar e adaptar como coisas úteis.

E as bicicletas, senhores?… Ora nem mais! Quando esta cidade criar condições para que possamos andar a pé, de skate, de patins, de bicicleta ou com carrinhos de bebé. Quando os jardins substituírem os parques de estacionamento de superfície. Quando as ruas forem devolvidas a quem nelas mora e delas se serve, estão estarão a ser dadas condições ao comércio local. Poderemos andar e parar e sentar-mo-nos. Olhar para uma montra e entrar. Ir à mercearia comprar uma maçã e ficar sentado na relva a saborear os doces frutas da vida. Faremos, ao fim e ao cabo, o mesmo que fazem as pessoas pelas cidades capital desta Europa unida! Onde ninguém faz drive-in shopping! O que talvez importe perceber é que quando se empurram as pessoas para dentro dos c.c, não se pode depois andar a prende-las cá fora.

A maior parte de nós depende do carro para fazer praticamente tudo sem sequer disso se dar conta. Nem vale a pena enumerar o rol de coisas que só fazemos se lá chegarmos bem sentados. Com razão, ninguém imagina ir ao hiper de bicicleta. Só a ideia de empurrar o carro das compras assusta, quanto mais… Mas pudemos ir à loja da esquina a pedalar. Temos de acreditar que podemos alterar hábitos e é aqui que a bicicleta entra como factor de mudança. E é por isso que o comércio de bairro só tem a ganhar com a bicicleta, bem como com outras coisas úteis.

Para ficar por aqui, que se estende a prosa, o que me apetecia escrever era: não é muito difícil fazer coisas úteis. É preciso é faze-las!

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